Anarquia sentimental

Parece episódica e diria espúria e para muitos insólita a vertente anarquista de Afonso Lopes Vieira, assumidamente monárquico e próximos dos do Integralismo Lusitano, mas, por registo diverso, virulentamente antisalazarista. 
Foi, de facto, um momento de juventude, que deixaria marcas no seu único livro de ficção , Marques, A História de um Perseguido, que publicou em 1903 e li, numa segunda edição publicada pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda, organizada por Eduardo Cintra Torres.
Foi nesta senda que o poeta traduziu o opúsculo de Pyotr Alexeyevich Kropotkin que no original havia sido publicado em 1880. Impresso no Porto, foi editado pela Livraria Editora Viúva Tavares Cardoso, sita ao Largo de Camões.
Porquê desta sincronia com o anarquismo é tema de há muito pensado, como o ilustra o texto de Cristina Nobre, no qual, citando conversa entre o poeta e Aquilino Ribeiro, coloca na boca deste a pergunta: «também passou pela portela anarquista...?» e na do perguntado uma primeira resposta: «Como toda a gente que se preza. É a forma protoplásmica da generosidade mental.» e, na passada, uma outra: «[...] esta brochura explica-se ainda por uma paixoneta que tive pela sobrinha de Kropoktine que conheci em Paris. Não me arrastou ela até Londres»?.
Em suma, libido e não política, anarquia sentimental, em suma.
Encontrei, enfim, a obra, pela mão do Paulo Domingues, poeta e alfarrabista. Alguém a tinha feito encadernar a negro - cor simbólica - sem título na magra lombada, que mal o suportaria, juntada de breve texto de 32 páginas, nem na capa, como se por segurança de olhos curiosos e de todos eles, os da polícia. Aqui o trago, regressando a este espaço. Li-a. Prosa pobre, mensagem ingénua, clamor por uma consciência social dos mais novos «que os velhos, - os velhos de coração e de espírito , - ponham de parte, pois, esta brochura, para não fatigarem inutilmente os olhos com uma leitura que nada lhes dirá».
Paradoxal circunstância: na chamada segunda capa [afinal o verso da capa] vem anunciado o sucesso na Alemanha de uma peça teatral de Júlio Dantas, A Ceia dos Cardeais. Talvez não tanto a despropósito, não fora o modo como o facto vem anunciado, entre as iguarias deglutidas pelos prelados,  entre os quais um verdadeiro faisão, os arminhos das vestes, o Sèvre que valeria oitocentos marcos.

Triste Charneca

É quase a findar o volume dedicado à Estremadura, Alentejo e Algarve do Guia de Portugal que em 1927 por coordenação de Sant'Anna Dionísio a Biblioteca Nacional editou e a Fundação Gulbenkian permitiu reeditar em 1983 o texto que Afonso Lopes Vieira escreveu sobre S. Pedro de Moel [ali grafado como Muel] 
Texto situado no seu tempo tem, por isso, redobrado valor até pelo contraste que permite. A escrita é contemporânea com a destruição do «caminho velho», edificado entre 1880-1881, em favor de um ordenamento oficial. 
Contristado com os "cortes" impostos por esse ordenamento, Vieira comenta: «[...] teria sido bem natural e humano que o ordenamento, determinado há cerca de 50 anos pelo silvicultor Barros Gomes, se houvesse modificado, por inteligente deliberação ulterior. Assim, a burocracia de Lisboa vai reduzindo uma estrada, que era interessante na Europa, e uma triste charneca».
Típica, é, porém, a razão do seu penar, o tratar-se de «prejudicar uma das nossas raras estradas que deliberadamente olhou aos interesses espirituais da paisagem».

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Foto: Bernardino António Barros Gomes.

Mau jurista, muito menos poeta

Regresso aqui com os versos que Afonso Lopes Vieira dedicou a Coimbra, onde por seis anos andou às voltas com um curso de Direito, concluído pelos mínimos, descontente e rebelde.
O exemplar, encadernado a pano vermelho que me coube - vermelho, afinal, as cores do curso - traz o ex-libris do seu anterior detentor: «pensar nos outros» e o seu nome: Raul de Oliveira.
Há nos versos o morno lirismo típico de quem viveu Coimbra boémia e estudantil e as costumeiras referências ante as quais, a mais não haver, ficaria obra sem destrinça de quantas se publicaram em saudade e recordação. O Mondego, o Choupal, as tricanas, o luar e as serenatas, por ali surgem, em rima por vezes falhada, em métrica que também coxeia.
O que há no pequeno livro de interessante é, porém, o clamor ardoroso de revolta, contra a vida que foi dado viver e contra a vida que se avizinha. 
A primeira vem logo anunciado no primeiro poema, os «dias banaes/que por terem passado é que parecem bem»; a segunda é tema do segundo poema, que na undécima estrofe se proclama: «Escusaes de fingir saudades p'lo Mondego/Sem comedias, parti, levando o rosto enxuto/Não falleis de bohemia e conquistae o emprego».
Estão aqui, por outro lado, as sementes por germinar de uma alma que se afirmaria inconformada com os do seu tempo: «e vós confessareis/que a legendaria capa negra não encobre/aventureiros, mas apenas bachareis».
Dedicado a Alberto Costa [o aqui já referido Pad Zé] e a Emerico de Alpoim, O Meu Adeus, é admissão do desinteresse por aquelas aulas, aquele curso, aqueles livros. Saudade dos antigos, «sem dinheiro, sem Dôr, com musculos - e doudos/Esses que já lá estão inda souberam ser/Rapazes a valer, bons camaradas todos,/Cantavam á viola, estudavam sem ler». Seis anos de Universidade «Dos seis anos que andei os livros sobraçando/- Té ao cabo chegar desta navegação,/E nos bancos da aula o corpo flagellando,/Pouco vi que fallasse a este coração».
Mas já a intervenção cívica irrompia. «O estudante eram um pouco a Patria aventureira/Que ama a mulher, o acaso, e á sorte se confia...», Pátria doente «A Patria deu-nos a mamar um leite doente/Nossa Patria foi tuberculosa Mãe:/Sou como vós degenerado descendente,/De iguais males padeço e sou pôdre també».
Estudante de Direito «bacharel, como toda a gente» [diria] assim se retrataria: «No velho casarão de monastico ar/Eu seis annos gastei da minha vida inquieta/E, se aprumado entrei, sahi a corcovar: Fiquei um mao jurista e muito menos poeta!»



Um alfobre de virtudes

Advogado em Leiria, Vasco da Gama Fernandes deixou um livro de memórias, terminado a 14 de Junho de 1974. São lembranças de vida e de intervenção política, dedicadas ao seareiro Manuel Mendes e entregue a Francisco Lyon de Castro, da Europa-América, para publicação, antes do 25 de Abril.
Tinha lido já uma referência de que nelas havia menção a Afonso Lopes Vieira. Consegui o livro e confirmei que a a menção existia, detalhada e lisonjeira.
São Pedro de Muel - assim grafava - era o local das suas férias e de sua família, na altura mais grave da guerra contra o fascismo». Ali fez amigos, um dos quais, até à morte, o Poeta.
Cito alguns excertos dessa recordação, vindas de alguém que, republicano, democrata e socialista estava longe das ideias políticas daquele que em sua casa o recebia «sempre braços abertos.
Logo este:
«A verdade, porém, é que Afonso Lopes Vieira era um autêntico Homem na total acepção da palavra. Monárquico, não acreditava numa monarquia que não fosse popular, e daí o desentendimento entre o republicano que sou e o realista que ainda defendia o que já era impossível. [...] Foram horas em regimes porque havia coisas mais altas que nos uniam e nos quais o nosso acordo era completo: o desprezo pela ditadura, a aversão por Salazar e seus processos, a comum decisão de trabalhar para a restauração das liberdades públicas, o ódio ao nazi-fascismo e a a todas as formas de tirania».
E este outro:
«Afonso Lopes Vieira era um homem muito justo, sabendo bem reconhecer os méritos dos seus adversários, admirando-os e respeitando-os, e é com emoção que o ouvi falar, com igual respeito, de um Paiva Couceiro ou de um António Sérgio, da poesia de Armindo Rodrigues ou da de Miguel Torga. A justiça era a norma da sua vida e razão teve Fialho de Almeida quando, certo dia, o considerou como um «alfobre de virtudes» as tais virtudes postas à prova quando escondeu em sua casa, da fúrias da polícia, o seu adversário político, essa formosa consciência que foi Raul Proença.»

Animais nossos amigos

Consegui-mo o Paulo Domingues, poeta, editor, alfarrabista, amante de livros. Há nele a singeleza meiga de um Guerra Junqueiro,  no seu arrebatador de inocência «Pela estrada plana, toc, toc, toc,/Guia o jumentinho uma velhinha errante/Como vão ligeiros, ambos a reboque». 
Há em Animais nossos Amigos, de Afonso Lopes Vieira, o o despojamento  e a paz pelo amor, tal São Francisco a quem o livro dedica o poema final, em que uma estrofe, na candura do seu verso é um autêntico manifesto social, quando o Santo se dirige à fera: «Eu sei porque fazes mal,/eu sei o que te consome/tu és tão mau afinal,/tu és mau - porque tens fome»
Vim aqui trazer este momento agora que a noite cresce. O exemplar que me coube tem uma dedicatória: «com um beijo da avó muita amiga, Adília Maria.»
Que infortúnios ou acasos terão atirado este livro para fora do que foi o espólio de livros - poucos, muitos, que importa, este! - daquela neta a quem fora oferecido. Tê-lo aqui, à mercê do que me venha a suceder um dia, a mim e logo a ele, é, pois, esperança de que viverá mais uns anos! «O gato, à sua janela,/ao sol, que brilha fulgindo,/vai dormindo,/vai pensando/ e vai sonhando». Noite tranquila a todos.

Gil Vicente: no breve opúsculo, a revolta!

Talvez se tenha obscurecido a natureza combativa e afrontosa de Afonso Lopes Vieira ante a delicadeza da sua lírica e o requinte do seu trato urbano. E talvez fosse o pequeníssimo opúsculo, que li nesta tarde de cansaço, o esforço a abater-se em preguiça, o local onde menos esperaria ver surgir, em inflamado discurso, essa parte lidadora do seu ser.
Mas, sim, ei-lo lido, vagarosamente, linha a linha, colectânea de duas palestras, a primeira, que dá capa à obra, conferência realizada no Serão Vicentino do Teatro República, a 15 de Janeiro de 1912; a segunda, mais breve, a convite de Júlio Dantas, no Teatro Nacional, quando da récita clássica dos alunos do Conservatório, a 29 de Abril de 1911.
Exaltação de "Mestre Gyl", há no primeiro texto, vincado a fogo, mais do que o retrato do homem que, pelo nascente teatro, fez a áspera censura dos vícios do seu tempo e a amorosa elegia do que são sobejava ainda, resignado embora, no povo que tanto ali exprimiu, há, por voz alheia, aquilo que o autor de Marques, essa personagem dos esconsos do anarquismo, pensava e sentia e pela estética expressava, um Afonso Lopes Vieira feito para o confronto persistente, animoso e pertinaz.
Há também claro, o que se derrama em toda a sua obra, a proclamação da Arte como valor salvífico e de fraternidade, do patriotismo como expressão de amor à terra onde se nasce e à tradição que lhe dá vida, o fascínio do Mar, a devoção ao feminino.
Mas há sobretudo um furor violento contra a tirania e a  hipocrisia, a revolta de um cristão sem Santa Sé, um inconformado com um paraíso perdido no fastio do esquecimento.
Lopes Vieira encontra, assim, em Gil Vicente e consigo próprio se encontra «um pensador da Reforma, que aprendeu com Luthero a sua aversão à Roma industrial e pagan, e a sua audacia de lh'o exprimr claramente. É um christão à moda popular, um christão primitivo que desconfia do Papa e lhe ralha sem temor quando é preciso». E continua, sem peias: «O christianismo de Gil Vicente é poético e puro, e sendo ele o inimigo mais cruel dos frades inúteis e gozadores, é elle tambem quem dirige à Virgem estes versos encantandores».
Seria fácil, seguramente, nesse tempo de anti-clericalismo ter dito quanto ele disse? Seguramente, sim. A República estava aí, fresca ainda, e com ela o jacobinismo e a Carbonária. 
Vieira, era, porém, de uma outra família no plano das convicções. e não o renegou. 
E, por isso, ganha sentido ter visto quanto viu: «No teatro de Gil Vicente perpassa uma sociedade já corrompida, de que as figuras da Barca do Inferno nos dão uma amostra eloquente». 
E não cede ao populismo reinante, demo-liberal, antes fustiga o país «onde o povo não ama ainda a sua terra, pela razão simples de que a não conhece. Gente exilada na sua Pátria, povo genial para derribar, rebelde para construir e conservar [...].» 
E, por isso, acirrado, provoca: «Quando todas as outras coisas se apagaram na memoria incerta dos homens, - seja a fama dos poderosos, sejam as façanhas dos condottierii. - a piquena imagem d'um santo na portada d'uma igreja ou uma simples quadra popular - resistem moços, eternamente...»
Mais mansa, a segunda palestra, mais chegada curiosamente ao advento do 5 de Outubro. Mas no desenrolar do discurso, a propósito do Auto da Feira, e entretendo o auditório com a lembrança do que afirma ser esse «formosissimo vilancico, que é o desabrochar do teatro português, «d'esse ingenuo e tocante fresco de catedral», solta, inesperado troar, este tiro arrasador: «Por ironia do Destino, o menino que o nosso rude e sincero Vaqueiro veio saudar, foi aquelle que, mais tarde, se chamou o rei D. João III, o monstro sombrio, o dragão viscoso e asperrimo que entregou a alma portuguesa às mão assassinas dos jesuitas, e acendeu as lavaredas dos autos de fé».

Ao Soldado Desconhecido


Como todos os seres complexos, Afonso Lopes Vieira resiste a classificações simplistas. Entre as comuns, no que aos da Literatura respeita, há sempre a tentação de situá-los no espectro político das categorias existentes, as dicotómicas. O autor da Em Demanda do Graal não seria excluído desta tendência por causa da qual muitas vezes se desfoca a análise literária em prol da qualificação ideológica.
Falando com um local, vizinho da sua Casa em São Pedro de Moel, considerava-o como um «homem das esquerdas». Para tal terá contribuído o seu envolvimento anarquista na juventude e as lendárias ou reais conspirações em que se envolveu e sobretudo o insurrecto rancor que nutria pela figura e obra de António de Oliveira Salazar.
Para Rodrigues Cavalheiro, que organizou para as Edições Panorama uma colectânea de escritos do poeta, Vieira surge, porém, situado nos parâmetros do nacionalismo, percursor do pensamento do integralismo lusitano. Eis o que encontrei neste seu livro, em leitura ontem iniciada.
Cavalheiro foi historiador, apoiante do salazarismo, depois de ter rompido com o  nacional-sindicalismo de Rolão Preto. Licenciado em ciências histórico-geográficas foi professor do ensino liceal, nos Liceus Camões e Gil Vicente e docente na Escola Naval. A partir de 1932 foi Chefe da Secção de Bibliotecas e do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa. Foi sócio da Academia Portuguesa de História, Deputado em 1942 e Procurador à Câmara Corporativa a partir de 1961.
Tudo isso, no que ao organizador da antologia se refere, ajuda a aproximar a figura de Afonso Lopes Vieira da linha de pensamento que lhe era cara, considerando-a na «sua admirável obra de doutrinação nacionalista» sobretudo na vertente da «campanha de reaportuguesamento de Portugal, em que teve por companheiros mais íntimos um José Figueiredo e um Raul Lino», defensor dessa «religião de Esperança», a de um «verdadeiro nacionalismo» que «tem de ser universalista, como lusíada e europeu».
O livro, reunindo textos oriundos das suas múltiplas obras, contém um prefácio interessante, do qual respigo este facto interessante que passo a relatar.
Foi em Março de 1921, dias antes de terem sido transladados os restos mortais dos soldados portugueses mortos na 1ª Guerra, uma na França, outro em África. [ver com detalhe aqui]


O Bispo de Leiria, o Marechal Joffre, o Presidente da República António José de Almeida, o General Smith Dorrien e outros oficiais estrangeiros no Mosteiro da Batalha, no Claustro central, junto ao túmulo dos Soldado Desconhecidos da Grande Guerra.

Afonso Lopes Vieira publicaria uma plaquette de quatro páginas com o poema Ao Soldado Desconhecido (morto em França) [quem quiser ler o texto integral, encontra-o aqui], cuja venda reverteria a favor de «um órfão da guerra». 
O poema, em tom pungente abre com o verso «Sem discursos, sem frases,/ sem alexandrinos,/ porque a Piedade que nos fazes/ deshonrá-la-hiam os hinos,/ vem, oh Soldado Português da Guerra/ dormir emfim na tua terra/ de Portugal,/ e que a voz dela te embale numa caricia enorme :/ — Dorme, meu menino, dorme...»
Mas, desgraça do autor, adiante consta esta outra estrofe que foi tida como acinte contra os que haviam mobilizado a Nação para aquele combate que terminou em tragédia para as nossas impreparadas tropas, dizimadas pelos alemães: «[...] vem, oh Soldado Português da Guerra,/ dormir emfim na tua terra,/ e que a tua presença/ espectral,/ a tua imensa/ presença acusadora e aterradora /para quem te exportou como um animal,/ se estenda sobre o céu de Portugal!».
A obra seria apreendida e o autor detido durante umas horas, pois que houve quem no Exército e na política considerasse injurioso o excerto em causa.
O episódio foi detalhadamente estudado por Cristina Nobre numa monografia publicada em 2015 nos Cadernos de Estudos Leirienses [pode ler-se aqui].
O que encontro na colectânea de Rodrigues Cavalheiro? O teor mais detalhado de uma carta sua, publicada pelo Diário de Lisboa, a 28 de Abril desse ano, em que [para além do excerto citado por Cristina Nobre] se contém esta citação do General Gomes da Costa, contida no seu livro A Batalha do Lys [pode ler-se aqui] e carregada da autoridade de ter sido ele o Comandante do Corpo Expedicionário Português:
«Devemos todos curvar-nos cheios de admiração e cheios de respeito diante deste pobre gambúzio que meteram num navio com uma arma às costas, sem lhe dizerem para onde ia; que colocaram numa trincheira diante do Boche sem lhe dizerem por que se batia; que passou meses queimado pelo sol de fogo, enregelado pela neve, atascado em lama, encharcado, tiritando com frio, carregando à baioneta quando o Boche avançava...».

É História, que a reconstrução ideológica da História, finge não ter sucedido. Dia a dia, a verdade, vai, porém, fazendo retornar à praia do conhecimento o que muitos jogaram, por interesse, borda fora.




    Para além do nefelibata

    Ali estava, ontem, na íngreme calçada que é a Rua da Oliveira ao Carmo, na minúscula arca de tesouros bibliográficos, a conferência proferida por Alfredo Gândara, a 7 de Setembro de 1952 na Casa do Poeta em S. Pedro de Moel, editada no ano seguinte em opúsculo pela Comissão Municipal de Turismo da Marinha Grande. 
    Trouxe-ma, à pergunta sem esperança «e de Afonso Lopes Vieira?», o guardião desse templo de iniciações que é a Livraria Antiga do Carmo, o Senhor José Ferreira, que há tanto tempo não visitava, e sabe-se lá porque oculto sortilégio, teimei sempre em supor que se chamaria Marques.
    Está aqui comigo. Existia, afinal, salvo do pó, aquele folheto. Trago-a à vida, o local onde as palavras ecoaram ali ao fim da breve rua, em noite de Domingo em que chuva irrompe, juntando o céu ao mar.
    Obra de panegírico, proferida ante autoridades, é, no entanto, interessante em várias facetas que se me revelaram da vida e obra do autor das Canções do Vento e do Sol
    Logo dela a primeira claridade, indo do fim do opúsculo para o princípio, surgiu-me, tirando-a o conferencista da boca do lendário Pad-Zé [Alberto Costa de seu nome], companheiro de quarto em Coimbra nos tempos em que Afonso cursava Direito: a "desconstrução" [irritante termo hoje tão em voga] da imagem do poeta. Fica essa por hoje.
    Eis, em longa citação, impossível de cindir: «À sua maneira - maneira sóbria e intelectual - o grande poeta foi estúrdio. É preciso retocar o retrato de Afonso Lopes Vieira, vulgarizado em certas camadas menos cultas - retrato de nefelibata que passou como sombra pela Vida e não viu a Vida. Contra esta caricatura, protesta a sua actividade de poeta cívico e de cidadão consciente - vida cheia de viril coragem e de constante ensinamento: vida de pregação, de vigilância e de inconformismo. Protesta, ainda, a sua inquieta e ansiosa juventude de cerebral e hiperestético, cuja alma profunda e ardente e cujo coração faminto de sonho sofriam as angústias da asfixia, num ambiente rarefeito de Espírito e sobretudo de Estesia, mas que nunca deixou de ser natural e humano, na sujeição às materialidades terrenas.»

    Lei em verso e de ouvido: um poeta que ri!

    Chegaram vários livros, vindos do meu alfarrabista que já se tornou amigo e não nos conhecemos pessoalmente. E, tirando uma pausa à profissão, o que, miséria, só sucede quando o corpo entra no limiar da exaustão, li este, em dois ímpetos, um sono reparador pelo meio. 
    Tão estragado pelo tempo, manchado pela humidade, amarelecido o papel, a ter de manusear com cuidado para que a lombada não se partisse, ou rasgassem as páginas, sendo espesso o papel, mas tão companheiro reconfortante.
    E sorri, ri mesmo, tentei ler como se a uma imaginária cidade, numa ansiada janela onde pudesse gritar: «tão bom! que paz e quietude nesta simplicidade risonha, que halo de alegria nesta mundo de notícias nojentas».
    Afonso Lopes Vieira cursou Direito em Coimbra. Sem esforço, com mínima aplicação. E na carta-prefácio à obra diz, a jeito de porquê: «Não estudar, em Coimbra, seguramente encontra seus motivos na única parta divina do nosso pobre ser, o sub-consciente: - é a defesa subtil do nosso instinto alerta!».
    Já volto a esse texto inaugural em que a Coimbra e seu ensino jurídico são tão fustigados, mas digo, desde já o essencial no que a Vieira respeita: a sua leitura transportou-me para uma rebeldia de espírito, uma graça sulfúrica que não descortinava na lírica delicodoce que é, nas descuidadas selectas literárias, e a sua efígie literária. 
    O livro são as memórias de Vicente Pinheiro de Mello [Vicente Pinheiro Lobo Machado de Melo e Almada, de seu nome integral], 2º Visconde de Pindela, irmão do 1º Conde de Arnoso. 


    Seria administrador colonial, nessa qualidade Governador de São Tomé e Príncipe, Par do Reino, e ministro plenipotenciário em Haia e Berlim. É em Berlim que encontra, nos seus papéis, este seu caderno de memórias coimbrãs e as editará, no ano de 1909, impressas, em edição de autor na Tipografia A Editora, ao nº 50 da Rua do Conde Barão em Lisboa. Eis [à esquerda, numa foto da época, o palacete seiscentista pertencente à família Almada-Carvalhais, onde era a sede da tipografia]

    Um dos capítulos do livro é dedicado a Afonso Lopes Vieira, as referências à sua pessoa, reiteradas. Num desses textos, intitulado "O Codigo Civil, poema lírico", lembra episódio, ocorrido no quarto do Poeta, na sua casa aos Palácios Confusos, «onde não houve loucura que não sonhassemos e que não tivesse a sua immediata realisação». 
    Nessa noite, e como me faz sentido que tudo seja noctívago, os sentidos apurados, a mente desperta, Vieira «atirou-nos subitamente com uma idéa que lhe nascera momentos antes - idéa monumental que consistia em passar ao verso nem mais nem menos do que o próprio Codigo Civil em pessoa».
    E segue Pindela, em narrativa que, pelo ritmo e pela ironia, transporta o seu leitor para a antecâmara onde o burlesco surgirá: «Era sobretudo o regresso do Verso à sua origem primitiva, quando as Legislações eram rithmadas, para honra das Leis e commodidade dos povos, que assim as decoravam melhor».
    E, eis, os dois artigos do Código Civil de 1867, em cuja redacção metera mão Alexandre Herculano, lei das leis do tempo em que as leis se liam e entendiam, trazidas agora às musas galhofeiras pela pena do poeta de São Pedro de Moel.
    Para que melhor se entenda, leiam-se os dois artigos glosados, diria gozados, o primeiro na íntegra, o segundo na parte sobre que recaiu a risota poética:

    Artigo 1º
    Só o homem é susceptível de direitos e obrigações. Nisto consiste a sua capacidade jurídica, ou a sua personalidade».

    Artigo 8º
    A lei civil não tem carácter retroactivo. 
    [..]

    E agora, prossegue Pinheiro de Mello, «o poeta, pedindo discretamente silencio, em voz grave e pausada, lia-nos os seguintes artigos:

    Artigo 1º

    Isto parece-me incrível
    Isto faz-me comichões!
    Só o homem é susceptível
    De direitos e obrigações.

    Artigo 8º

    Que triste vida na choça
    Que vida sem lenitivo
    Ai! a lei civil não tem
    Effeito retroactivo.

    O riso, é como a pólvora, quanto mais se comprime mais estoira. Mas de um fogo-de-artifício se trata neste magnífico livro. Continua o seu autor, fechando em «oh!» a sua descrição: «De todos os assistentes sahiram à uma freneticos appalusos. O poeta, porém, interrompeu-nos, núm gesto largo de desolação: «Infelizmente, meus amigos, nos disse elle, não posso continuar. Ó! decepção tremenda! - E porquê, com mil diabos? gritou o Américo. A razão comtudo era simples: o poeta só conhecia dois unicos artigos - e de ouvido!»
    Voltarei ao livro, pelas mesmas razões e do mesmo modo, a Faculdade de Direito de Coimbra e seus Doutores, que irmanou autor a prefaciador, causticada à Eça de Queiroz, o mesmo que queria forrar a parede de seu quarto «com pele de Lente».

    Inevitabilidade e inexistência

    Outro encontrado em primeira edição, o pequeno livro, em oitavo, Onde a terra se acaba e o mar começa, título tirado de verso dos Os Lusíadas [III, 20]: «Onde a terra se acaba e o mar começa/é Portugal;/simples pretexto para o litoral,/verde nau que ao mar logo se arremessa».
    Dedicado «à memória do meu amigo Vicente Arnoso», composto na Primavera de 1940 na Imprensa Portugal-Brasil para a Livraria Bertrand, de Lisboa. Capa desenhada por João Carlos, retrato do autor da autoria de Eduardo Malta.
    Diria que desfeia o meu exemplar, concretamente a página do livro onde se lê o poema Saudade [n.º 41] uma pequeno trecho manuscrito a tinta vermelha, de origem desconhecida, letra redonda, uma nota que nem poética regular chega a ser e que aqui transcrevo [tal qual grafado]: «Tem sete letras apenas/A dôce palavra saudade/Quem primeiro a pronunciou/Com certeza que chorou».

    Para que ganhe sentido o acrescento, eis o breve poema de Afonso Lopes Vieira: «Esta palavra saudade/aquele que a inventou/por ser a palavra tão doce/ia chorar, não chorou».
    Trata-se, pois, de réplica por contraposição à ideia do poema, trazendo sentido comum e ilação fácil ao que no original tem dimensão mais subtil e profunda. 
    Para Vieira, o inventor da palavra «ia chorar, não chorou», para quem aditou o que cito, «com certeza que chorou». 
    E porque tornou o poeta do livro ora achado a inevitabilidade em inexistência, o ir chorar em não ter chorado? Pela doçura da palavra. E eis o que dá para pensar.

    A Fé e o Império

    Pois ali estava à minha espera, mão do Luís Gomes, alfarrabista, a conferência que tanto problema deu ao seu autor. Proferida em Luanda aos 28 de Junho de 1932, no âmbito da Feira de Amostras, tinha o meu exemplar [vi depois ser o 132 de uma série de 200, o que terá valor para coleccionadores de antiguidades] uma dedicatória feita pelo autor a Vasco Gama Fernandes, advogado de Leiria e que Presidente foi da Assembleia da República: «Ao Dr. Vasco da Gama Fernandes  recordação das minhas aventuras africanas».

    Lia-a, pelo que nela se contém e não pela polémica em que quem a proferiu esteve envolvido com Henrique Galvão, comissário da Feira. Para quem quiser isso, há aqui [no blog Malomil] um apontamento.
    A Feira estava organizada para a dilatação da Fé e do Império Colonial Português, projecto político no qual Galvão se envolveria, em união de total dedicação e oferta ao regime do Estado Novo salazarista [veja-se aqui, da Hemeroteca, esta notícia de declarações suas sobre o evento], salazarismo que Vieira detestava com todas as forças de sua alma, como no-lo revela Aquilino Ribeiro num apontamento sobre a sua pessoa.
    Para Vieira a oportunidade de exprimir, em exaltação poética e mística a sua ideia de Pátria e o seu ideário nacionalista.
    Curioso, porém, o excerto em que exprime a sua crença e apreço pela obra da República, num momento em que precisamente, a ideia que em 1910 se inaugurara encontrava o seu ocaso, o 28 de Maio em vias de se constitucionalizar, como sucederia em 1933: «Para a nossa concepção do nacionalismo português, isto é, para a nossa consciência da Fé e do Império, pudémos nós-outros adquirir e fortificar-nos com ideias que apenas há cerca de vinte anos foram estabelecidas em Portugal. Se é evidente que a consciência nacional tanto se elevou e enrijou neste período, isto provém de um grupo admirável de ilustres Portugueses, os quais têm vindo a realizar a obra magnifica de reconstrução nacional em todos os ramos da actividade da inteligência, desde a história à filologia e à literatura, nas ciências matemáticas aplicadas aos Descobrimentos, na crítica de arte [...].»

    O alfenim

    Prossigo os encontros com a minha estante e cruzo-me desta feita com João Gaspar Simões e a sua autobiografia escrita na forma dos poeta que ele conheceu e ali logo o primeiro com que abre o livro: Afonso Lopes Vieira.
    O texto é retrato de um encontro, de uma convivência, de uma leitura. O primeiro, marcante, a segundo a ter dado em amizade, a leitura afinal lisonjeira. Separava-os um fosso de idades, Vieira já sexagenário, Simões pelos trinta.
    João Gaspar Simões cruza-se com Afonso Lopes Vieira na «década de trinta», na Baixa, na rua do Ouro, na confluência desta com a Praça D. Pedro IV e deixa aqui o fresco das pinceladas burlescas a pretenderem ser, indeléveis, a «figura com que se cruzou»: «singular silhueta, espécie de dandy, pequenino, de passo saltitante, cujos minúsculos pés uns polainitos, brancos, se não estou em erro, ainda tornavam mais minúsculos». 
    E prossegue, desdenhoso: «esse janota de passo saltitante, que a uma primeiro golpe de vista me fez crer estar diante de um Charlot, ao mesmo temo distinto e ridículo, fosse como fosse desajustado ao meio, sorte de alfenim como os alfenins das Guerras do Alecrim e da Manjerona».
    Já é severo o vocabulário, mas não sossega. E prossegue em perguntas que albergam afirmações: «Quem era aquele fantasma?», «[...] a quem perguntar de onde viera, para onde ia o piruteante bailarino». 
    E, entusiasmado com a palavra "alfenim", que atrás usara, insiste: «era nem mais nem menos esse alfenim, semelhante ser frágil, quase feminino no seu porte e no seu andar, nos seus gestos e nos seus ademanes, era - Afonso Lopes Vieira». 
    Chegaria para o leitor ter captado o que teriam visto os olhos do anafado crítico, rotundo e virulento, que de Eça de Queiroz escrevera uma biografia, tingida de psicanálise e de segredos privados, mas, qualquer coisa de fundo teria sido tocado, a nível da sensibilidade, porque não pára tudo quanto pudesse diminuir o ali exposto. E logo «a figura quebradiça e vibrátil, preciosa e afectada», enfim, «a fragilidade andrógina».
    Basta, pois! dirá o leitor, e bem. Já se entendeu o choque do esguio ao rotundo.

    Em homenagem ao poeta, salva o bilioso crítico a pele, lançando na página do seu retrato: «Teria eu alguma vez conhecido homem tão firme e decidido, tão claro e lúcido, tão impertinente franco, tão corajosamente amigo do seu amigo e inimigo do seu inimigo?» E, numa frase, que tudo resume  afinal, contrasta a «forte personalidade moral encarnada numa frágil presença física».
    Venceu, com alívio se lê, o que verdadeiramente vale e honra. 
    João Gaspar Simões duas vezes esteve em casa de Lopes Vieira, uma última vez subiu ao Castelo para acompanhar o corpo do poeta morto. «De facto, a única vez que percorri a Casa de São Pedro - assim se chamava a moradia do poeta à ilharga do Pinhal de Leiria - já o autor de Onde a Terra se Acaba e o Mar Começa, principiara a sua rota para além da terra». Pena, de facto, tarde demais.
    +
    Tudo li, tudo retive. Ficou o enigma da palavra "alfenim", aplicado a uma silhueta humana. Entendi esta manhã de Sábado chuvoso em que martelo aqui este apontamento: tratava-se de associar a imagem à alvura de um doce tradicional, de origem árabe e que se expandiu pelos Açores e pelo Brasil. E, para que se compense em doçura o que, em amargo, Simões viu, aqui fica este texto de J. H. Pires Borges, com a devida vénia retirado deste blog aqui:

    «No Século VIII, os Árabes invadem e ocupam a Península Ibérica e terá sido nessa altura que introduziram esta gulodice, confeccionada com açúcar ou melaço de cana, designada por “al-fenid” ou “al-fanid” significando a palavra árabe branco ou alvo e derivando em “alfenim” na língua portuguesa e que era um doce muito popular no sul de Portugal.A guloseima “al-fenid” ou “alfenim” vai influenciar a confecção de doçaria na região do Algarve e, também, em Portugal.Em 1404, no tempo de D. João I, inicia-se o cultivo da cana do açúcar no Algarve devido à grande procura do açúcar.Em 1425, o Infante D. Henrique manda introduzir a cana do açúcar na ilha da Madeira. Assim, aumenta a produção de açúcar a nível nacional e permite a variedade e a qualidade da doçaria em Portugal.Em 1465, algumas famílias do Algarve vem povoar a parte oeste da ilha Terceira, ou ilha de Jesus Cristo e, possivelmente, poderão ter introduzido esta arte de confeccionar o açúcar e transformá-lo em “alfenim”. Por exemplo, essa influência mourisca está patente na Ribeira do Mouro na freguesia das Cinco Ribeiras.No século XVI, o Alfenim aparece citado em obras de Gil Vicente e de Jorge Ferreira de Vasconcelos por ser uma gulodice popular em Portugal.Com o descobrimento e colonização do Brasil é introduzida a cana do açúcar onde também, se passa a fabricar o “Alfenim” ou “Alfeninho”.Em 1516 foi enviado ao Papa Leão X a escultura do Sacro Colégio, com todos os cardeais em tamanho natural feitos em alfenim que foi oferta do Terceiro Capitão Donatário do Funchal, D. Simão Gonçalves da Câmara. O culto do Espírito Santo tem um grande incremento a partir do século XII-XIII aquando do “Milagre das Rosas” da Rainha Santa Isabel e a Coroação dos Pobres na Vila de Alenquer iniciando-se a Devoção ao Divino do Espírito Santo - Terceira Pessoa da Santíssima Trindade simbolizado pela Pomba Branca.Mais tarde, o “alfenim” ou “al-fenid” devido á sua brancura, que é subentendida como pureza e purificação, foi assimilado e introduzido no culto religioso cristão. Desde então, o doce “alfenim” foi transformado em peças de arte gastronómicas tais como a Pomba Branca representando o Espírito Santo, e todos os outros símbolos utilizados no ritual de celebração da Festa do Espírito Santo ou dos Santos Padroeiros como a coroa, a rosquilha de pão, os animais e outros motivos decorativos que eram doados à Irmandade do Espírito Santo ou outras e, mais tarde, leiloados revertendo a venda para a organização da festa. No caso de graça obtida, a pessoa encomenda à doceira que confeccione uma peça com a simbologia ou outras formas, em “alfenim”, indicando o peso da peça que pretende, a parte do corpo que beneficiou de uma graça do Divino Espírito Santo: um braço, uma perna, um pé, etc..O “alfenim” surge assim, associado às Festas do Espírito Santo e dos Santos Padroeiros, ofertado em retribuição das graças obtidas».

    A recheada livraria

    Sobrinho neto de António Xavier Rodrigues Cordeiro, de que recebeu, por doação, a recheada livraria, escrevi. E eis parte da mesma, impressionante, na casa em Lisboa, no Largo da Rosa.

    Entrevista com Cristina Nobre


    Camões: Lopes Vieira e o Cinema


    Rodado em 1946, produzido por António Lopes Ribeiro, realizado por Leitão de Barros, com música do Maestro Ruy Coelho, o argumento é de Afonso Lopes Vieira, que nesse ano faleceria e a quem o filme, foi, por isso, dedicado. [tendo dificuldade em visionar no blog, clicar aqui para ver no Youtube; são 115 minutos de película]-

    De um texto de Maria do Rosário Lupi Bello permito-me citar este longo excerto [texto integral aqui], porque elucidativo da obra: 

    «Dentre as várias obras cinematográficas portuguesas (curtas e longas metragens) baseadas na figura e na obra de Luís Vaz de Camões, uma sobressai, tanto pelo imediato sucesso que granjeou, quanto pelo valor simbólico que lhe foi atribuído: trata-se do filme a preto e branco, de 115 minutos, intitulado Camões (com o subtítulo Erros meus, má fortuna, amor ardente) realizado por Leitão de Barros e estreado no dia 23 de Setembro de 1946, no cinema S. Luís, em Lisboa. Com argumento do realizador e de Afonso Lopes Vieira (que morreu nesse mesmo ano e a cuja memória o filme é dedicado), produzido por António Lopes Ribeiro e protagonizado por António Vilar, o filme recebeu, desde a primeira hora, o aplauso da crítica e do público, que chegaram mesmo a defini-lo como a melhor obra do nosso cinema até à data. O Governo português de então considerou-o de “utilidade pública”, tendo o filme ganho o grande prémio do Secretariado Nacional de Informação nesse mesmo ano, bem como vários prémios para o desempenho dos principais actores: Prémios do SNI para o melhor actor, António Vilar (Luís de Camões) – aqui num dos melhores desempenhos da sua brilhante carreira -, para a melhor actriz, Eunice Muñoz (Beatriz da Silva), e menções honrosas para Vasco Santana (o Mal-Cozinhado) e Paiva Raposo (Pero de Andrade Caminha). Carmen Dolores representa dois breves papéis, nas figuras de Catarina de Ataíde e Natércia, e Igrejas Caeiro dá corpo a André Falcão de Resende. Camões foi apresentado oficialmente no Festival de Cannes de 1946 e permanece como uma obra de referência no contexto do cinema português dos anos 40. Trata-se, de facto, de um filme que logra desenvolver de modo relativamente elaborado e feliz os códigos da tendência da época, de cariz histórico-literário melodramático (como diria Luís de Pina), chegando a um grau de apreciável, quase barroca, sumptuosidade, no que ao guarda-roupa e cenários diz respeito, e sabendo manter um ritmo narrativo bem articulado e eficiente do ponto de vista dramatúrgico. Fazendo do jovem Camões um verdadeiro e irreverente Don Juan, em permanente despique literário e amoroso com Pero Andrade Caminha (o qual vem a reconhecer a supremacia artística do autor de Os Lusíadas), passando pelo retrato dos seus momentos de glória enquanto poeta maduro e testemunhando o final de miséria e abandono da sua vida, o filme incide sobretudo na glorificação patriótica do povo representado na epopeia de Os Lusíadas e identificado com a grandeza do seu autor, dando assim voz à exaltação da História de Portugal.»